Escreve que eu te entendo
REVISTA SORRIA / ONLINE - - 01/05/2013

Quando começou sua carreira, Raiza Martins, de 24 anos, descobriu que tinha dificuldade em escrever e-mails. Ao entrar como estagiária em uma grande empresa, a engenheira de Vila Velha (ES) abreviava tudo e salpicava emoticons nas comunicações corporativas. Para todo mundo. Escrevia como falava – e nem sempre da maneira mais adequada. “Era viciada em linguagem de internet e não sabia que ela não era bem-vista no trabalho”, diz. “Não fui advertida porque minha chefe também tinha problemas com a escrita. Mas senti que isso me prejudicaria.”
Foi aí que a garota começou a se policiar. Passou a escrever usando uma abordagem mais séria mesmo nas mensagens informais. Deixou para trás as abreviações e passou a ler mais. Hoje, ocupa seu horário de trabalho vistoriando obras, mas não se assusta ao enviar um texto formal ou um relatório. “Quem é da área de exatas tem mais dificuldade em escrever, pois a faculdade em si não estimula a escrita. Mas isso pode e deve ser revertido”, diz.
Informal ou profissional?
Raiza percebeu que, além dos cálculos e da técnica em sua profissão, escrever e compreender a linguagem escrita de maneira correta é uma habilidade fundamental no trabalho. No Brasil, quase 20% da população é considerada analfabeta funcional: pessoas com até quatro anos de estudo que têm dificuldade em ler e redigir um texto. E, além disso, o uso do computador, da linguagem de internet e de textos cada vez mais curtos e simples contribui para aumentar os obstáculos na hora de escrever e entender textos longos.
“Hoje, uma das principais barreiras para que os jovens ingressem em grandes empresas não é o inglês nem o espanhol, e sim a língua portuguesa”, explica o professor Carlos Jonathan, que ministra aulas de língua portuguesa e administração no Espro (Ensino Social Profissionalizante), entidade sem fins lucrativos que prepara jovens para o mercado de trabalho. “Há jovens, mesmo os mais bem formados e que vêm de boas escolas, que reconhecem que nunca leram um livro inteiro na vida”, diz.
Essa falta de habilidade para escrever, além de uma deficiência generalizada em cultura geral, é, de acordo com Jonathan, um grande obstáculo para os funcionários nas empresas brasileiras. Para esses, é difícil não só entrar, mas progredir no trabalho. A dificuldade também é um dos gargalos para o crescimento da economia, que precisa de profissionais cada vez mais bem preparados. E o único jeito de reverter esse quadro é lendo mais (de quatro a 20 livros por ano) e praticando a escrita – não só a informal, mas em vários formatos, tipos, conteúdos e plataformas.
5 DICAS PARA UM TEXTO PERFEITO
1. Leia mais - Busque textos de qualidade, como livros, jornais e revistas. Preste atenção a nuances de estilo, vocabulário, argumentos. Eles podem ser modelos para seus textos.
2. Reescreva - Faça seus textos e exercite a escrita. Leia e reescreva, se achar que fica melhor. Pode ser em cartas, um diário ou um blog na internet. Compartilhe com os outros e ouça a opinião deles.
3. Simplifique - Evite frases muito longas e escrita rebuscada, com vocabulário difícil. Isso pode comprometer a compreensão do seu leitor, além de pedir ortografia e pontuação cuidadosas.
4. Seja formal - A linguagem com abreviações, gírias ou onomatopeias é comum e a maior parte das pessoas sabe utilizá-las. Por isso, tente fazer textos mais formais, deixando de lado esses vícios da escrita.
5. Estude - Busque sinônimos no dicionário, para não repetir a mesma palavra na sentença. Evite gerúndios como “vou estar enviando um e-mail” e se envolva em projetos que pedem a escrita.
Para gostar de escrever
Ao se formar em Direito, em 2006, Alexandre Gonzaga conhecia o poder transformador da linguagem. O mineiro sabia que a comunicação, especialmente a oral, é um trunfo dos bons advogados. Afinal, em um tribunal, seria preciso empenho na língua pátria para convencer os jurados da inocência de um réu. Ele só não tinha ideia de que saber escrever perfeitamente também seria tão importante em sua profissão.
Alexandre não cometia muitos erros de gramática ou ortografia, mas pecava pelo excesso do linguajar específico de sua profissão – o “juridiquês”. Quando começou a trabalhar como subprocurador na Câmara de Vereadores da cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais, percebeu que tinha de trocar e-mails não só com profissionais – colegas da área jurídica, procuradores, advogados, juízes e membros do Ministério Público –, mas também com políticos e cidadãos comuns. Entendeu que a linguagem podia facilitar ou impedir suas atividades. E decidiu melhorar seu desempenho.
“Busquei ferramentas para aprimorar minha comunicação escrita e fiz um curso de pós-graduação para ter mais domínio da língua portuguesa, que é complexa”, diz o advogado. “Percebi quanto é importante diversificar o discurso, torná-lo menos técnico e mais acessível. Reconheço que, antes, faltava simplicidade e naturalidade no que escrevia”, diz.
Em seu dia a dia profissional, não faltam oportunidades de pôr em prática o que aprendeu, seja nos e-mails, nas petições ou textos normativos que precisa redigir. “Hoje, eu me sinto incomodado quando vejo erros de português”, conta o advogado. Além de uma obrigação profissional, saber ler e escrever bem se tornou um prazer para Gonzaga, que tomou gosto pelos clássicos da literatura universal. Terminou Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, e, na fila, está Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes.
Parece óbvio, mas cultivar a leitura de qualidade – livros, jornais e revistas – é um dos principais conselhos que a professora Vera Lopes da Silva, coordenadora da pósgraduação do Instituto de Educação Continuada da PUC Minas, dá a seus alunos. “Muitos afirmam não ter tempo de ler, mas leem o tempo todo na internet. O problema é a qualidade dessa leitura”, diz Vera.
Além de lerem, os estudantes de Vera – profissionais que voltam às aulas para aprender leitura, escrita e gramática – se dedicam a escrever muito. Relembram as velhas aulas de gramática e ortografia e as põem em prática. “O aluno chega a refazer o mesmo texto oito vezes”, conta Vera. Aos poucos, lendo, escrevendo e reescrevendo, eles compreendem como a linguagem escrita pode ser uma barreira ou abrir portas. E, ao dominá-la com maestria, entendem que a escrita liberta.